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A construção civil responde por uma fatia expressiva do PIB brasileiro
- 16% -, mas é o único setor da economia nacional que ainda não
se industrializou, alertou o engenheiro Luiz Henrique Ceotto, diretor
da Construtora InPar, durante o seminário Inovação na Construção
Civil Brasileira, realizado no dia 31 de março em São Paulo. Promovido
pelo Instituto UNIEMP (Fórum Permanente das Relações Universidade-Empresa),
o evento teve a participação de empresários, executivos, pesquisadores
e lideranças da construção civil.
"Até alguns anos atrás, os setores que resistiam à industrialização
no Brasil eram a agricultura, o têxtil e a construção civil", lembra
Ceotto. "A agricultura se modernizou é hoje é responsável pelo superávit
da balança comercial brasileira; o setor têxtil deu a volta por
cima, conseguiu preços internacionalmente competitivos e hoje exporta
seus produtos; já a construção civil continua utilizando métodos
arcaicos e ultrapassados". Para o diretor da InPar, a resistência
à industrialização é "um obstáculo ao desenvolvimento do setor".
Entre 2001 e 2003, o PIB da construção civil acumulou queda de 12,7%;
em 2004, teve desempenho positivo (5,9%) semelhante ao PIB nacional
(5,2%).
Na avaliação de Luiz Henrique Ceotto, se a construção civil brasileira
adotasse a industrialização em grande escala, "poderia se tornar
um dos setores da economia a liderar o processo de aumento da produtividade
brasileira".
O dado contraditório é que a construção civil brasileira já tem
acesso a produtos e sistemas construtivos com tecnologia tão avançada
quanto em qualquer outro país. Mas não os utiliza, a exemplo do
drywall - ou 'construção seca'. "A parede de alvenaria, além de
ser improdutiva e tecnologicamente atrasada, não atende às exigências
de desempenho das edificações modernas; no entanto, o setor se nega
a adotar construção seca mesmo conhecendo suas vantagens", afirmou
Luiz Ceotto.
Ainda são poucos os exemplos de inovação, na prática, da construção
civil brasileira. Um deles é oferecido peça Munte Construções Industrializadas,
que faz elementos pré-fabricados de concreto. Ela investiu R$5 milhões
em uma nova planta industrial baseada no Lean Thinking, sistema
desenvolvido pela Toyota que visa reduzir o tempo de produção e
aprimorar a qualidade. Com o novo sistema, a Munte reduziu o tempo
de fabricação da telha W de 22hh/m3 (horas-homem por
metro cúbico de concreto pré-fabricado) para 13 hh/m3.
Como resolver
Walter Cirillo, presidente da Rhodia e do conselho deliberativo
do UNIEMP, fez, na abertura no Seminário, uma analogia entre a construção
civil e a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária).
"Em trinta anos de funcionamento e atuando em várias frentes, a
Embrapa foi responsável pela criação de novas tecnologias que proporcionaram
um aumento expressivo da produtividade agrícola no Brasil", argumentou
Cirillo, e inferiu: "Se tivesse sido criada uma 'Embrapa' da construção
civil, certamente este setor também teria gerado e agregado progressos
tecnológicos expressivos". Para ele, uma alternativa seria reunião
de diferentes competências - empresas, universidades, institutos
de pesquisa e entidades do setor - visando à promoção de ações inovadoras
na construção civil brasileira.
A proposta do presidente do conselho deliberativo do Instituo UNIEMP
já encontra eco no segmento do cimento. Associação Brasileira de
Cimento Portland (ABCP) criou a Comunidade da Construção, que incentiva
as construtoras e indústrias a investir em tecnologia de processos
construtivos à base de cimento e a dividir os custos. A Comunidade
tem conselhos instalados em 16 cidades do Brasil. "Formado por construtoras,
empresas de materiais de construção, universidades e órgãos como
Senai e Sesi, cada conselho elege um problema prioritário para o
qual os investimentos em tecnologia serão dirigidos; a ABCP atua
no planejamento e metodologia", informou Valter Frigieri, gerente
de Planejamento e Novos Projetos da ABCP-SP.
Preocupação do governo
A inovação tecnológica é vista pelo governo federal como fundamental
para diminuir o déficit nacional de 6,7 milhões de habitações. De
acordo com Aser Cortines Peixoto Filho, vice-presidente de Desenvolvimento
Urbano e Governamental da Caixa Econômica Federal (CEF), 91,6% desse
déficit está relacionado a quem ganha menos de cinco salários mínimos,
sendo que 83,2% desse contingente não tem condições de arcar com
a compra de um imóvel. "A Caixa considera essencial o desenvolvimento
de novas tecnologias para diminuir o custo das habitações populares
e assim garantir o acesso da população de baixa renda", afirmou
Peixoto.
O governo federal quer também garantir a qualidade das habitações.
"Por isso, a implantação do Sistema Nacional de Avaliação Técnica
- Sinat - será essencial para a avaliação das novas tecnologias
a serem utilizadas no processo de construção", afirmou a coordenadora
do Programa Brasileiro de Qualidade para Habitação (PBQPH) do Ministério
das Cidades, Maria Salette Weber. O Sinat deverá ser implantado
ainda este ano pelo Ministério das Cidades.
A necessidade de inovação tecnológica não está relacionada apenas
à construção de mais habitações. Segundo Aser Cortines Peixoto Filho,
o Brasil tem um déficit de 5,4 milhões de habitações urbanas. No
entanto, nas regiões centrais das cidades há cerca de 4,6 milhões
de habitações vagas, que poderiam voltar a serem ocupadas. "Precisamos
ter mais empresas especializadas neste segmento, pois a recuperação
de imóveis exige tecnologias diferentes da que é usada na construção",
disse Peixoto.
Segundo ele, na Europa cerca de 60% das atividades da construção
civil estão direcionadas para a recuperação de imóveis. Apesar de
ser uma tendência mundial, apenas 5% das construtoras brasileiras
atuam neste mercado. Para o diretor da Escola Politécnica da Universidade
de São Paulo, Vahan Agopyan, "as construtoras brasileiras não perceberam
que a recuperação de áreas degradadas é um filão de mercado; e,
se não acordarem em tempo, essas oportunidades poderão ser exploradas
por grupos estrangeiros", disse.
Sustentabilidade
Vahan Agopyan enfatiza que a sustentabilidade ambiental é outra
grande tendência da construção civil em todo o mundo. Segundo o
pesquisador, a sociedade está exercendo forte pressão para a construção
civil diminuir o impacto de suas atividades no meio ambiente. Por
isso, é necessário que o setor proponha e desenvolva programas com
a participação do governo, de entidades ambientalistas e da sociedade.
"Do contrário, muitas leis relacionadas ao meio ambiente e que afetam
diretamente a cadeia produtiva da construção civil podem ser aprovadas
à sua revelia", afirmou; "e isso pode ter conseqüências nefastas
para o setor".
Nesse contexto, a inovação tecnológica, seja em métodos construtivos
ou produtos, é um elemento estratégico não só para o desenvolvimento
do setor como do próprio país. "A construção civil está diante de
uma grande oportunidade de avanço; caberá ao setor decidir por qual
caminho irá trilhar", disse Luiz Henrique Ceotto.
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